Terapia com animais ganha terreno nos EUA e divide opiniões

WASHINGTON — No aeroporto de São Francisco um porco acalma os viajantes. Em universidades americanas, cachorros e burros tranquilizam estudantes durante os exames finais. Lhamas confortam pacientes em hospitais, vira-latas fornecem socorro em locais de desastres e cavalos são usados para tratar viciados em sexo. E aquele pato em um avião? Pode servir de apoio emocional, prescrito por um profissional que trata saúde mental.

Tendência nos Estados Unidos, a terapia animal é sustentada por uma crença amplamente difundida de que a interação com animais pode reduzir o sofrimento — seja por breves carícias em um aeroporto ou uma relação de algum tempo em casa. Mas a adesão popular está causando desconforto entre pesquisadores da área, que afirmam que a prática se disseminou muito antes das evidências científicas.

EVIDÊNCIAS OBSCURAS

No início deste ano, no periódico científico “Journal of Applied Developmental Science”, uma introdução a uma série de artigos sobre “intervenção assistida por animais” afirmou que a pesquisa sobre esse assunto ainda está engatinhando. Uma revisão recente da literatura científica, feita por Molly Crossman , doutoranda da Universidade de Yale, citou um “corpo obscuro de evidências”, que algumas vezes mostrou efeitos positivos a curto prazo, outras não encontrou nenhum efeito e, ocasionalmente, identificou taxas mais altas de sofrimento. No geral, segundo Crossman, os animais podem ser úteis em uma escala “de pequena a média”, mas não está claro se os animais merecem o crédito ou se há outro fator envolvido.

— É um campo que foi levado adiante pelas convicções de praticantes que viram a saúde mental de pacientes melhorar depois de interagirem com animais ou adotá-los — afirmou James Serpell, da Escola de Medicina Veterinária da Universidade da Pensilvânia. — Esse tipo de coisa quase conduziu o campo, e a pesquisa está tentando se atualizar. Em outras palavras, as pessoas estão reconhecendo que o senso comum não é suficiente.

De acordo com pesquisadores, a maioria dos estudos sobre o tema utilizou pequenas amostras e “um número alarmante” de pesquisas não controlou outros possíveis motivos para mudança nos níveis de estresse, como a interação dos pacientes com os treinadores do animal.

A boa notícia é que o aumento de financiamentos na área tem possibilitado a realização de mais pesquisas. Molly Crossman, por exemplo, desenvolveu durante o ano passado um estudo no qual submeteu crianças, várias vezes por mês, a sessões de terapias de 15 minutos com cães. Os participantes de 10 a 13 anos interagiam com os animais após realizarem atividades estressantes. As crianças responderam questionários antes e depois da prática e tiveram amostras de saliva coletadas para avaliar a presença de cortisol, o hormônio do estresse. Embora o resultado da pesquisa ainda não tenha sido publicado e autora não queira revelá-lo, Cross afirma que espera que sejam positivos:

— Eu digo “espero” não apenas porque acho que funciona. As crianças já estão participando disso em grande escala.

Fonte: Globo

, , ,