Grupo de mulheres faz a diferença na vida de cegonhas e seus filhotes

Em um dia nublado em julho, em uma vila remota no nordeste da Índia, Charu Dass animadamente imita os movimentos de uma cegonha com as mãos.

Em poucos meses, a cegonha greater adjutant, chamada de hargilla, que significa “engolidora de ossos”, em sânscrito descerá sobre esta aldeia indiana, situada no Vale de Assam, para se reproduzir, segundo o National Geographic.

Dadara e duas aldeias vizinhas, Pasariya e Singimari, são rodeadas por zonas úmidas, ricas em alimentos e repletas de árvores altas perfeitas para os animais.

A região tornou-se uma grande fortaleza para esta espécie de cegonha ameaçada principalmente pelo desmatamento e ao desenvolvimento generalizado de zonas úmidas.

De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza, restam apenas entre 800 a 1.200 animais da espécie permanecem na Índia e no Camboja.

Porém, graças aos esforços do “Exército de Hargillas”, uma brigada de 70 mulheres locais que trabalham para a preservação do animal, a região é agora “a maior colônia de nidificação de hargillas do mundo”, apontou a bióloga Purnima Devi Barman, da Aaranyak, uma organização sem fins lucrativos de conservação sediada em Assam.

Cerca de 550 destas aves vivem nas três aldeias citadas acima, de acordo com um estudo de 2015 conduzido por Barman.

O Exército de Hargillas tem sido tão bem sucedido na redução das ameaças e na proteção de habitat das cegonhas que o grupo ganhou o Prêmio de Biodiversidade do Programa de Desenvolvimento da ONU de 2016.

Muitos moradores da região consideravam as aves “sujas” por causa do odor de seus excrementos e os o tamanho dos pássaros – que chegam a pesar até oito quilos – exige que as árvores sejam fortes o suficiente para que não caiam dos ninhos.

No entanto, a maioria das árvores altas era cortada pelos resistentes em terras privadas e as pessoas muitas vezes também cortavam as árvores para evitar as cegonhas.

Reprodução/Aaranyak

Reprodução/Aaranyak

Barman descobriu que a solução era trabalhar com as comunidades locais para a conservação do animal. Como as mulheres desempenham papéis decisivos em domicílios rurais de Assam, Barman começou a fazer amizade com elas.

Ela organizou reuniões pequenas e informais para falar sobre o papel do pássaro no meio ambiente e enfatizou a importância do pássaro na mitologia hindu e, assim, o Exército de Hargillas nasceu.

Depois que Barman convenceu os moradores a salvar os animais, desde 2010, as árvores não são cortadas. A brigada de conservação é organizada em 14 grupos e conta com o apoio de oficiais, administradores distritais e ONGs da região.

O ornitólogo Asad Rahmani enfatizou a importância do trabalho da brigada: “Testemunhei como o esforço destas mulheres beneficiam os animais. A melhor parte é que a brigada é formada por mulheres da comunidade rural que conhecem bem o seu ambiente, e são, portanto, mais adequadas para proteger as aves”.

“Eu pessoalmente já visitou as aldeias e testemunhou o esforço de base comunitária tremenda do Exército Hargilla”, diz Rahmani, conselheiro científico sênior do Bombay Natural History Society, que não esteve envolvido no projeto.

A brigada leva sua mensagem de preservação para escolas e conscientiza as crianças sobre a importância dos animais e mulheres têm feito produtos tradicionais e trajes homenageando as cegonhas e que posteriormente serão colocados à venda.
As mulheres também cantam pelo bem-estar das mães cegonhas e de seus ovos.

Ainda há desafios para a espécie, em particular, para os filhotes que podem cair dos ninhos e morrer devido aos ventos fortes e tempestades. Para evitar que isso aconteça, o governo local e a brigada de conservação colocaram redes ao redor das árvores.
Se os moradores notarem filhotes caídos, eles informam a delegacia de polícia local e os animais são levados para receber tratamento antes de voltar à natureza.

Desde a instalação das redes, as mortes de filhotes caíram consideravelmente, diz Barman e a brigada deve expandir suas proteções para outras colônias de nidificação do Vale do Brahmaputra.

“Nosso Exército de Hargillas é um exército sem armas. Porém, ele é ‘armado’ com o empenho e determinação para lutar contra todas as probabilidades para salvar esta ave ameaçada de extinção”, ressaltou Barman.

Fonte: Anda

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