Fotos mostram porcos do Rodoanel um ano após tombamento de carreta

“Hoje podemos ver o céu, sentir a chuva, brincar na lama, sentir o vento, viver em bando, fazer bagunça, correr atrás dos outros. Hoje somos porcas e porcos com muito orgulho”. Foi com estas palavras postadas em uma rede social que o Santuário Terra dos Bichos, em São Roque (SP), “comemorou” nesta semana a passagem de um ano do resgate dos 110 porcos que estavam em uma carreta que tombou no Rodoanel, na altura de Barueri (SP).

Porcos resgatados do Rodoanel vivem em santuário na cidade de São Roque, SP (Foto: Cintia Frattini/Arquivo Pessoal)
Santuário sobrevive com ajuda de doações e apoio
de voluntários (Foto: Cintia Frattini/Arquivo Pessoal)

Uma série de fotos que também foi publicada nas redes sociais mostra como os animais estão atualmente vivendo no sítio no interior de São Paulo. Um ano após o acidente, eles receberam até nomes: são chamados de Marias e Zézinhos. Em um ano, vários novos animais nasceram, já que parte das porcas resgatadas estava prenha. O G1 visitou com exclusividade o santuário um dia após o resgate.

O capotamento aconteceu em 25 de agosto de 2015, na praça de pedágio do Rodoanel, deixando totalmente interditada a saída para a Rodovia Castello Branco. O resgate gerou grande comoção entre os ativistas já que, em uma das tentativas de desvirar a carreta, os animais, na maioria fêmeas, ficaram ainda mais machucados. A máquina não conseguiu erguer a carga e a carroceria tombou novamente com os animais dentro. a operação para retirada do veículo durou quase sete horas.

Toda a operação foi acompanhada por um grupo de ativistas, que resolveram levar os animais para o santuário em São Roque e se mobilizaram em uma vaquinha online que arrecadou R$ 280 mil em apenas uma semana.

Porcos resgatados do Rodoanel vivem em santuário na cidade de São Roque, SP (Foto: Cintia Frattini/Arquivo Pessoal)
Resgate de porcos do Rodoanel completou um ano nesta semana (Foto: Cintia Frattini/Arquivo Pessoal)

No santuário, os poucos mais de 60 porcos resgatados receberam atendimento de veterinários e voluntários. Por conta dos ferimentos, 25 acabam morrendo ou precisaram ser autanasiados. Outros nove porcos foram adotados por uma veterinária que trabalhava como voluntária no local.

Porcas chegaram prenhas após resgate em tombamento no Rodoanel (Foto: Cintia Frattini/Arquivo Pessoal)
Porcas chegaram prenhas após resgate no
Rodoanel (Foto: Cintia Frattini/Arquivo Pessoal)

“Foi um marco do ponto de vista do ativismo. Não havia acontecido um resgate desse porte de animais de produção para consumo como este no Brasil. Foi muito comovente os gritos [dos porcos]”, conta Cintia Frattini, a responsável pelo santuário, que recentemente foi registrado como uma Organização Não-Governamental (ONG).

Atualmente, o local abriga 92 porcos machos e fêmeas, já que novos animais foram levados para o local após o acidente. Ativistas conseguiram negociar com o frigorífico em Carapicuíba (SP), que entregou outros 22 porcos que estavam na carreta que tombou e acabaram sendo levadas pela empresa. Mais tarde, em outubro, dezenas de porcos foram resgatados de um sítio em Diadema (SP) pela Delegacia de Combate ao Crime de Meio Ambiente.

Desde então, os animais foram abrigados, de forma improvisada, no local. São cerca de 1,5 mil m² na área para os porcos, sendo parte em um galpão de 400 m² e uma outra área também coberta. Segundo estimativas da ONG Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), os gastos mensais com cada porco devem girar em torno de R$ 500, somando mais de R$ 22 mil por mês, o que acabou complicando a situação financeira do santuário.

Porcos resgatados do Rodoanel vivem em santuário na cidade de São Roque, SP (Foto: Cintia Frattini/Arquivo Pessoal)
Porcos resgatados do Rodoanel vivem em santuário no interior de SP (Foto: Cintia Frattini/Arquivo Pessoal)

Sem dinheiro
O santuário realiza desde o começo do ano uma nova campanha para suprir as despesas com os animais resgatados. Além de outra vaquinha online, interessados também podem ajudar adotando ou apadrinhando os porcos, doando alimentos ou até mesmo montando eventos para arrecadar verbas.

“Com a chegada dos porcos, as despesas do santuário dobraram. Estamos numa situação muito crítica e difícil porque o dinheiro acabou há cinco meses. Muita gente participou da primeira vaquinha, mas como era boleto ou cartão de crédito, o dinheiro acabou não vindo mesmo”, avalia Cintia.

A verba foi aplicada para alimentação e tratamento dos animais, além de obras no santuário, como a construção de um poço artesiano para conseguir dar conta dos porcos, que consomem o líquido durante todo o dia.

A nova vaquinha, aberta desde fevereiro deste ano, entretanto, não decolou. Pouco mais de R$ 19,5 mil foram arrecadados da meta de R$ 200 mil. Do total arrecadado, R$ 1 mil ainda precisam da confirmação dos pagamentos de boletos. O quadro, entretanto, não surpreendeu os organizadores em uma comparação a atual campanha com a primeira, realizada logo após o capotamento.

“Era uma coisa do momento, da sensibilização pelo sofrimento dos animais. Tudo foi muito dramático, com o caminhão tombando e muitas porcas morrendo esmagadas. O importante é que as pessoas se colocaram no lugar dos animais e muitas se tornaram vegetarianas ou veganas depois disso”, diz Cintia.

Vaquinha para porcos do Rodoanel arrecada R$ 280 mil em uma semana (Foto: Reprodução)
Vaquinha para porcos do Rodoanel arrecadou
R$ 280 mil após acidente (Foto: Reprodução)

A verba será usada para a alimentação dos animais e novas adaptações no sítio. “A gente quer, por exemplo, que elas tenham o recinto com destinação sanitária de dejetos correto dos 35 litros eliminados por cada porco todos os dias. Infelizmente não estamos totalmente adaptados.”

“Não me arrependo”
Apesar das dificuldades, Cintia afirma que não tem dúvidas ao dizer que não se arrepende de ter aberto as portas do sítio para os receber os animais. “A gente fica apreensiva pela situação financeira, chora e fica triste porque as pessoas esquecem. O país não está bem e as pessoas não contribuem tanto. Mas eu luto pela questão da vida, então não me arrependo em momento algum.”

Agora, o santuário traça planos para o futuro, tentando não ficar tão dependente das doações. Entre os projetos, está a possível abertura do local para a visitação de estudantes e interessados em conhecer a cultura vegana. “A proposta do santuário não é ser zoológico, que a pessoa paga entrada e fica fazendo careta ou jogando comida para macaco. Quando aberto para visitação, seria monitorada e uma ou duas vezes por mês, com educação ambiental sobre os animais.”

Uma carreta que transportava porcos tombou no km 14 do Rodoanel sentido Castello Branco, na região de Barueri (SP), na madrugada. A saída do Rodoanel para a Castello Branco foi fechada e causou ao menos 8 km de congestionamento (Foto: Marcos Bezerra/Futura Press/Estadão Conteúdo)
Carreta que transportava porcos tombou no km 14 do Rodoanel em Barueri (SP) em agosto de 2015 (Foto: Marcos Bezerra/Futura Press/Estadão Conteúdo)
Fonte: G1
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