Fome: O que o desequilíbrio climático pode fazer?

Um vídeo com imagens terríveis, gravado durante uma expedição da emissora National Geographic, mostra o momento em que um urso-polar macho persegue um filhote para devorá-lo. Apesar de completamente chocantes, as imagens revelam uma verdade devastadora, raramente vista por olhos humanos. Eventos de canibalismo como esse não são tão incomuns, e podem se tornar mais regulares devido às alterações climáticas, que levam à escassez de alimentos no Ártico.

Apesar dos esforços da fêmea para proteger seu bebê, o macho se lança ao filhote e o dilacera com seus dentes em apenas alguns segundos, deixando a mãe totalmente desnorteada e traumatizada. Há muito tempo, sabe-se que os ursos polares canibalizam filhotes, mas raramente pesquisadores testemunham um evento como este.

O vídeo foi gravado no verão de 2015 na ilha de Baffin, no Canadá, por pesquisadores que estavam em uma viagem da Lindblad Expeditions, na National Geographic Explorer. Os pesquisadores acreditam que os ursos-polares costumam comer seus filhotes no final do verão e no outono, justamente quando pedaços de gelo se soltam da costa.

Como a mudança climática aquece o Ártico, o gelo do mar encolhe. Como os ursos-polares usam o gelo como plataforma de caça, a situação pode se tornar mais difícil para eles, que ficam com dificuldades para encontrar comida. Sem ter o que comer, ficam mais propensos a recorrer ao extremo canibalismo. “No final do verão, como o mostrado, você não vê muitas focas sobre o gelo nas áreas abertas, de modo que a quantidade de alimento disponível para um urso-polar fique bastante reduzida. Uma das únicas coisas disponíveis para comer, na verdade, são filhotes de várias idades. A filmagem em si é bastante rara, mas o evento provavelmente não é”, explicou Ian Stirling, biólogo da Universidade de Alberta e de Meio Ambiente, no Canadá, no próprio vídeo.

Acredita-se que, além dos ursos-polares, hipopótamos, salamandras, ursos-preguiça e outras espécies apresentem esse comportamento incomum na natureza, segundo a National Geographic. Os ursos-polares machos são maiores e mais agressivos, e recorrer ao canibalismo acaba não sendo tão difícil para eles quando o alimento é difícil de se encontrar. As fêmeas podem sentir até mais fome do que os machos, pois elas amamentam seus filhotes, mas geralmente evitam qualquer tipo de conflito.

Normalmente, segundo os pesquisadores, as fêmeas dos ursos polares correm muito rápido, para fazer seu filhote segui-la e mantê-lo longe do perigo, ao perceber o comportamento estranho do macho. Mas como o filhote está correndo ao seu lado, com pouca velocidade, elas são forçadas a desacelerar, o que permite que o macho se aproxime e cometa o ato canibal. Perder um filhote é muito traumático para a mãe, de acordo com os pesquisadores, e embora ela sempre tente proteger o bebê – como visto no vídeo -, a fêmea precisa se retirar rapidamente para salvar sua própria vida.

Embora os cientistas estudem esse comportamento desde os anos 80, poder avistá-lo com exclusividade foi uma experiência interessante, porém, chocante, para os pesquisadores. “Foi muito difícil desviar o olhar. Claro, você entende que esta é a vida no Ártico, e isto é algo que já sabemos sobre a biologia do urso-polar. Mas, ver essa atitude pessoalmente foi realmente dramático”, disse a naturalista Jennifer Kingsley, que testemunhou o evento.

Fonte: Jornal da Ciência

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