Baratas e ratos mudam de status e viram animais de estimação

Baratas e ratos costumam despertar sentimentos como medo, pavor e nojo na maioria das pessoas. No entanto, para dois moradores de Suzano, na Região Metropolitana de São Paulo, estes animais se tornaram “bichos de estimação”, com direito a carinho e cuidados para evitar o estresse dos pets.

Aroldo, Ernesto, Clotilde e Bernadete formam um quarteto de baratas de Madagascar cuidado com dedicação pelo engenheiro ambiental Luiz Fernando Alcântara Araújo, de 28 anos. Ele comprou as duas fêmeas e os dois machos há mais de quatro meses motivado pela curiosidade e o interesse por insetos e animais exóticos.

A venda destes animais é permitida no Brasil, mas depende da autorização do órgão ambiental de cada estado, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Baratas, porém limpinhas

Luiz disse que escolheu a barata de Madasgacar por elas serem mais limpas, não se alimenterem de dejetos e terem um convívio melhor com o ser humano. A dieta é à base de ração de cachorro triturada, alface e cenoura. Já a água é consumida por meio de um algodão umedecido.

“Elas não possuem cheiro e são suscetíveis ao toque. Quando se sentem ameaçadas emitem um assovio de alerta, mas somente para demonstrar que não estão à vontade. Elas não são capazes de atacar com mordidas e nem voar. É um inseto muito dócil e tranquilo, ótimo para quem tem pouco espaço ou procura ter um animal diferente. É recomendado para qualquer pessoa e para crianças a partir de 7 anos”, afirma Araújo.

Baratas se alimentam de ração de cachorro triturada, alface e cenoura (Foto: Luiz Fernando Alcântara Araújo/Arquivo Pessoal)Baratas se alimentam de ração de cachorro triturada, alface e cenoura (Foto: Luiz Fernando Alcântara Araújo/Arquivo Pessoal)

Baratas se alimentam de ração de cachorro triturada, alface e cenoura (Foto: Luiz Fernando Alcântara Araújo/Arquivo Pessoal)

O engenheiro explica que os cuidados são simples e envolvem medidas básicas de higiene. Uma das providências é manter o terrário onde elas vivem limpo e saudável. “Elas gostam de locais com baixa claridade. Durante o dia costumam estar escondidas e durante a noite são mais ativas, sendo mais fácil de visualizá-las.”

O engenheiro, que mora sozinho, revela que as pessoas se espantam quando descobrem seus “pets”. “Mas depois ficam curiosas para vê-las. Algumas até se arriscam a tocá-las. Geralmente perguntam o porquê de se criar baratas e qual é a rotina delas.”

Para não assustar as pessoas, o engenheiro evita sair de casa com o quarteto. Por isso, durante a noite ele, as tira do terrário para que circulem pela casa.

”Eu as coloco no ombro ou no braço e dou uma volta pela casa, para que possam sentir o ambiente e se sentirem seguras. Pelo fato de ser um inseto noturno e não gostar muito de claridade, eu procuro evitar expor a muita luminosidade para não causar nenhum estresse.”

Nabil e seu ratinho de estimação (Foto: Nabil Jmail Hariri Junior/Arquivo Pessoal)Nabil e seu ratinho de estimação (Foto: Nabil Jmail Hariri Junior/Arquivo Pessoal)

Nabil e seu ratinho de estimação (Foto: Nabil Jmail Hariri Junior/Arquivo Pessoal)

Mestre Splinter, o rato pelado

O analista de suporte técnico Nabil Jmail Hariri Junior, de 27 anos, escolheu seu pet justamente por ele ser diferente. “A maioria das pessoas já tem medo por se tratar de um rato, ainda mais devido à aparência dele , não possuindo pelos e tendo olhos vermelhos”, descreve Junior.

Ele explica ainda que essas particularidades do animal o fizeram desejar compreendê-lo melhor. O analista garante que “Mestre Splinter”, como chama o rato da raça hairless, é muito carinhoso e dócil. Embora conviva com o ratinho há menos de seis meses, Junior afirma que os cuidados com o pet são simples.

Ele diz que são necessários cuidados diários com a higiene do animal para garantir a saúde de “Mestre Splinter” e de sua família. “Essa rotina inclui o recolhimento das fezes, alimentação com ração normal e alfafa para roedores e uma vez por semana lascas de cenoura e de coco, troca da água; troca do pano de dormir e o aquário/gaiola deve ficar em local arejado, porque como ele não tem os pelos, ele é mais suscetível às intempéries do clima.”

“Mestre Splinter” vive como bicho de estimação  na casa de Nabil Jmail Hariri Junior (Foto:  Nabil Jmail Hariri Junior/Arquivo Pessoal)“Mestre Splinter” vive como bicho de estimação  na casa de Nabil Jmail Hariri Junior (Foto:  Nabil Jmail Hariri Junior/Arquivo Pessoal)

“Mestre Splinter” vive como bicho de estimação na casa de Nabil Jmail Hariri Junior (Foto: Nabil Jmail Hariri Junior/Arquivo Pessoal)

A proximidade que Junior tem com o ratinho não se aplica a sua família, que tem medo do novo pet.

“ Até hoje ainda não tiveram coragem de segurá-lo nas mãos. Ele é muito carinhoso e comportado, o medo e espanto das pessoas só se justifica devido ao medo do desconhecido, mas isto é normal. Sempre quando vem alguém em minha casa, faço questão de apresentá-lo para que as pessoas se familiarizem e não tenham tanto preconceito com este roedor incrível.”

Toby, um cachorro da raça pincher, é o outro animal de estimação do analista. Mas a amizade entre Mestre Splinter e Toby ainda não decolou. “Eles já se conheceram e se estranharam muito no primeiro encontro. Sendo assim, promovo encontros rápidos entre os dois, até que se familiarizem e aprendam a conviver juntos”, espera o dedicado dono do rato sem pelo de olhos vermelhos.

Empreendedor inovador

O comerciante Stenner Paulo Hazuhiko Hidaka resolveu apostar nesse segmento de pets diferentes em Suzano. Aberta há aproximadamente seis meses, a loja dele vende baratas, rato hairless, esquilo da mongólia (parecido com um rato), grilos, entre outros itens.

“Baratas eu tenho de dois jeitos. A de madasgacar que pode ser um pet e também para alimentação de macacos e lagartos. Assim como o grilo que é alimentação também. Eu sempre gostei de animais diferentes e conhecia pessoas que também gostavam. Eu fui pensando no negócio”, conta Hidaka.

Quanto aos pets inusitados, Hidaka garante que eles são os preferidos dos adultos. “As crianças ficam com medo e preferem o peixe, hamster ou porquinho da índia.”

De olho na lei

Para comprar um animal exótico é preciso, antes de mais nada, saber o que é permitido pela legislação brasileira. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), define animais exóticos como aqueles que não ocorrem naturalmente no país, como por exemplo, algumas espécies de cobras e lagartos.

De acordo com o Ibama são proibidas a venda, importação e criadouros para venda de qualquer espécie de répteis, anfíbios e invertebrados venenosos e peçonhentos.

“A lei coloca no mesmo patamar tanto quem vende quanto quem compra ou mantém em cativeiro um animal de origem ilegal. Ele responde pelo crime e a multa pode chegar até R$ 5 mil e prisão de seis meses a um ano”, explica a coordenadora de fauna do Ibama, Maria Izabel Gomes.

Por não ser originária do Brasil, a barata de Madagascar é considerada um animal exótico, mas não é venenosa nem peçonhenta. A venda é liberada desde que as baratas sejam criadas no Brasil. Os órgãos ambientais de cada estado é que devem autorizar a venda.

Maria Izabel alerta que os donos que adotam as baratas como pet e se arrependem depois não podem deixar o inseto no meio ambiente. “Elas podem causar um desequílibrio ambiental porque podem competir com a espécie brasileira e causar sua extinção. O ideal é que sejam entregues a um órgão ambiental para a destinação correta.”

Outro problema apontado por ela é o controle de natalidade das espécies. As baratas de Madagascar vivem, em média, cinco anos, mas se reproduzem com frequência e isso pode ser um problema para o criador.

Já o rato hairless é considerado um animal doméstico e, por isso, segundo o Ibama não é necessária autorização para importação. “Em termos de desequílibrio na natureza, ele nem gera muito, pois como não tem pelo, tem limitações quando está na natureza. A preocupação é com a questão sanitária que pode ser grave para a fauna.”

Apesar das proibições e restrições do Ibama não é difícil encontrar quem crie animais exóticos de várias espécies no Brasil. “A questão é que o nosso País tem dimensões continentais e, por isso, é difícil fechar as fronteiras para esse tipo de comércio ilegal. Por mais que tenhamos órgãos de controle ambiental e fiscais é difícil combater a falta de consciência ambiental. As pessoas não pensam na origem desses animais, no risco que eles podem apresentar para suas famílias, quais doenças podem transmitir”, ressalta Maria Izabel.

Fonte: G1

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