A fascinante estratégia das ‘aranhas-piratas’, que invadem teias de outras aranhas

Construir uma teia, pegar uma mosca, enrolá-la em seda e então devorá-la quando quiser. A eficácia dessa estratégia de caça foi tão comprovada que as aranhas que fazem teias esféricas são tidas como um dos grupos de animais mais bem-sucedidos. Elas podem ser encontradas em quase qualquer esquina do mundo e há mais de 3 mil espécies delas.

Fazer uma teia é uma estratégia muito sofisticada. Além de produzir vários tipos de seda e cola, a aranha precisa fazer uma sequência de manobras precisas.

Mas por que se incomodar em construir sua própria teia quando você pode simplesmente invadir a de outra e comer o arquiteto?

Um grupo clandestino de aranhas conhecidas como “piratas” adotou esse método de reoubar as presas de outros. Essa estratégia de caça é uma das mais marcantes do reino animal.

 Uma aranha pirata não identificada (Foto: Christopher Johnson, Insects Unlocked, CC by 1.0) Uma aranha pirata não identificada (Foto: Christopher Johnson, Insects Unlocked, CC by 1.0)

Uma aranha pirata não identificada (Foto: Christopher Johnson, Insects Unlocked, CC by 1.0)

As aranhas-pirata são membros do grupo de aranhas que inclui as “tecedoras em espiral” – aquelas que fazem as redes circulares que todos conhecemos – só que as piratas não fazem teias. Na verdade, elas perderam essa habilidade. Elas ainda podem produzir seda, que pode ser usada para construir sacos de ovos e enrolar a presa. Mas elas são anatomicamente incapazes de fazer uma teia. O número de “espigões” de seda em suas redes é bem menor comparado com o de seus parentes.

Em vez disso, elas invadem teias alheias, e tentam atrair a “dona”, mexendo nos fios.

Uma vez que a aranha anfitriã se aventurou perto o bastante, a pirata dá o bote. Primeiramente, ela imobiliza a presa com suas enormes pernas da frente. Elas são cobertas de espinhos enormes chamados de “macrosetae”, que elas usam para prender a hospedeira como em um cesto.

Então, o movimento final: a pirata morde sua presa e usa seus caninos para injetar um veneno poderoso que instantaneamente a imobiliza. É uma técnica de caça poderosamente eficaz.

“Pode ser fascinante assistir a uma pirata se movimentar sorrateiramente com seu par de pernas longas da frente para imobilizar a outra aranha”, diz Mark Townley da Universidade de New Hampshire. “Apesar de passar muitas horas alimentando piratas para nossos estudos, eu nunca me cansei de vê-las procurando e atacando suas presas. É algo fascinante de assistir. Elas conseguem movimentar o par de frente de pernas tão delicadamente que eu nunca vi as presas reagirem de alguma maneira, parece que elas nem mesmo percebem”.

Mas nós ainda não entendemos completamente como a estratégia da pirata funciona.

Uma aranha-peluda (Larioniodes cornutus) em sua teia (Foto:  Nick Upton/naturepl.com)Uma aranha-peluda (Larioniodes cornutus) em sua teia (Foto:  Nick Upton/naturepl.com)

Uma aranha-peluda (Larioniodes cornutus) em sua teia (Foto: Nick Upton/naturepl.com)

Particularmente, não está claro por que as aranhas-piratas pinçavam os fios da teia da hospedeira. Acreditava-se que elas faziam isso para imitar o efeito de um inseto preso na teia tentando se libertar. Talvez venha daí o nome em latim das aranhas-piratas, Mimetidae, ou “a que imita”.

No entanto, nem todos os entomologistas (especialistas em insetos) concordam com isso. “O comportamento das aranhas hospedeiras em relação às piratas e sua própria presa é bastante diferente, assim como as vibrações na rede causadas por essas duas fontes”, diz Carl Kloock da Universidade Bakersfield do Estado da Califórnia.

Ele tem uma outra sugestão. “Para mim, parece que as aranhas-piratas estão copiando as vibrações de aranhas invasoras da mesma espécie e possivelmente das aranhas de diferentes espécies”, diz Kloock. “Uma aranha precisa defender sua rede – um recurso valioso – de outras aranhas, que podem tentar tomar a rede para não ter que construir a sua própria, ou simplesmente tentar roubar as presas da rede”.

“Esses encontros seguem um padrão bastante simples, no qual as estranhas dão um sinal uma para outra e então se aproximam, geralmente até que a aranha menor desista e fuja da rede. Eu acho que as aranhas-piratas fazem isso basicamente para mandar um sinal falso que as apresenta como invasoras pequenas de rede que se recusam a sair, atraindo a residente mais e mais perto, até que estejam a uma distância boa o bastante para serem atacadas”, diz Kloock.

Há ainda a questão do veneno da aranha-pirata, que é extremamente tóxico para outras aranhas, incluindo membros de sua própria espécie, mas não em relação a outros animais. “Uma vez que uma aranha for mordida, ela não se move mais, enquanto moscas de fruta podem lutar por vários minutos”, diz Daniel Mott da Universidade Internacional A&M do Texas. “Suas toxinas parecem ser bem específicas para outras aranhas.”

Então por que, e como, uma estratégia de caça tão estranha poderia ter surgido?

O primeiro problema é que é que as aranhas que viraram presas também são predadoras, equipadas com espinhos e venenos. Isso significa que elas são muito mais perigosas que, digamos, besouros ou moscas, e também menos abundantes.

Em segundo lugar, as aranhas-piratas são predadoras especialistas. Apesar de ocasionalmente se alimentarem de presas de outras aranhas, sua principal fonte de alimento sempre são aranhas. Em comparação, a maioria das aranhas que fazem redes esféricas são predadoras que comem qualquer aventureiro que ficar preso em suas redes.

Na verdade, piratas não são capazes nem de capturar outras aranhas sem se apoiar na rede. “No laboratório, se você colocar uma aranha criadora de teias esféricas em uma jarra mas não permitir que ela faça uma rede, a aranha-pirata não vai atacá-la”, diz Danilo Harms da Universidade de Hamburgo, na Alemanha. “Ela precisa de uma rede para capturar outra aranha.”

De alguma forma, os antepassados das aranhas-piratas perderam a habilidade de tecer suas próprias teias e se tornaram predadoras de outras aranhas.

Harms diz que a explicação mais plausível é isso tenha começado com roubo. As antepassadas das aranhas-piratas podem ter começado a invadir as teias de outras aranhas para roubar insetos que a hospedeira havia capturado, envenenado e guardado com tanto esforço.

Esse comportamento tem um nome: “cleptoparasitismo”.

Algumas dessas protopiratas poderiam ter levado essa tática para um outro nível ao atacar as próprias aranhas hospedeiras. Com o tempo, elas então teriam se tornado cada vez mais especialistas em capturar outras aranhas: evoluindo pernas da frente mais longas que o comum, formas mais sofisticadas de pinçar fios de teias e venenos específico contra aranhas.

Essa ideia foi chamada de “hipótese da origem do cleptoparasitismo”.

Seja qual for a razão para esse comportamento inusitado, as aranhas-piratas são extremamente bem-sucedidas. Os cientistas descreveram mais de 160 espécies e elas foram descobertas em todos os continentes, exceto a Antártida.

O saco de ovos de uma aranha pirata (Ero sp.) (Foto:  Alex Hyde/naturepl.com)O saco de ovos de uma aranha pirata (Ero sp.) (Foto:  Alex Hyde/naturepl.com)

O saco de ovos de uma aranha pirata (Ero sp.) (Foto: Alex Hyde/naturepl.com)

“Nós sabemos um pouco da biologia de uma pequena fração das aranhas-piratas, mas não sabemos nada sobre a história de vida e comportamento da maior parte da espécie”, diz Gustavo Hormiga da Universidade de George Washington. “Por exemplo, não se sabe absolutamente nada sobre a biologia das belas e bizarras aranhas-piratas tropicais da América do Sul do gênero Gelanor.”

Nesse gênero, os pedipalpos dos machos – pernas modificadas que usam para inseminar as fêmeas – têm o dobro do comprimento do corpo deles. Pode ser que isso possibilite inseminar as fêmeas de uma distância. “Em todas as outras aranhas, a copulação exige que ambos os parceiros estejam perto um do outro”, diz Hormiga. Copular à distância pode ser uma precaução útil, já que as aranhas-piratas são agressivas, têm um veneno violento e são conhecidas por devorar outros aracnídeos, incluindo os de sua própria espécie.

Mas elas também têm um lado gentil.

Em um estudo publicado em novembro de 2016 no jornal Cladistics, Hormiga e sua aluna Ligia Benavides descreveram cinco novas espécies. Seu estudo também tinha o primeiro relatório de piratas fêmeas cuidando de suas proles.

O cuidado maternal é relativamente comum entre as aranhas. Algumas simplesmente regurgitam a caça para seus filhos, enquanto outras chegam a deixar seus bebês se alimentarem de seu próprio cadáver. Mas o amor maternal nunca havia sido visto nas “maldosas” aranhas-piratas.

“No campo, observamos fêmeas de Mimetus, Anansi e Ero cuidando de ovos e de suas crias. Piratas podem ser boas mães”, diz Benavides. “Em alguns casos, as fêmeas distribuíram seus ovos igualmente em uma pequena teia embaixo de uma folha. Mas se eu movesse uma teia ou tocasse a aranha, ela recolheria todos os ovos ou crias rapidamente, criaria uma bola com eles e os carregaria para longe para protegê-los”.

As aranhas-piratas realmente são impressionantes. No entanto, seu hábito de imitar a presa para devorar outra aranha – e agir como uma “mímica agressiva” – não é algo único a elas. É algo que evoluiu nos aracnídeos de maneira independente ao menos duas vezes antes.

Há um gênero de aranhas-saltadoras conhecidas como Portia. Essas aranhas também imitam o comportamento de suas presas, destroem as redes de aranhas hospedeiras e as devoram.

Como outras aranhas-saltadoras, as Portia têm olhos enormes e a maioria depende da visão para procurar suas presas. Já as piratas parecem depender mais de seu tato. No laboratório, cobrir seus olhos com tinta não prejudica seus ataques a outras aranhas.

As piratas e as Portia têm desenvolvimentos evolucionários bem recentes. No entanto, as “aranhas-pelicano” também se alimentam de outros aracnídeos – e elas são tão antigas que datam de antes da evolução dos insetos voadores.

As aranhas-pelicano devem seu nome às suas mandíbulas fenomenalmente grandes (“chelicerae”, em termos técnicos) e pescoços alongados. Antigamente conhecidas como Archaeidae, elas também são conhecidas como “aranhas-assassinas”.

Com uma mandíbula, elas golpeiam a presa. Com a outra, injetam o veneno na aranha suspensa e empalada.

As aranhas-pelicano sempre caçaram outras aranhas – diferentemente das Mimetidae, que evoluíram de aranhas que fazem teias esféricas. Elas foram descobertas pela primeira vez através de espécimes fossilizados em 1854, segundo Harms, antes de espécimes vivas serem encontradas em Madagascar, em 1881.

“Então, se você é mais velho que a ramificação dos insetos, o que você poderia comer? Potencialmente outras aranhas”, diz Harms. “É por isso que elas têm uma morfologia tão estranha”.

Por mais estranho que possa parecer, para algumas aranhas, alimentar-se de suas primas é uma ótima maneira de sobreviver.

Fonte: G1

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